Músicas Literárias - Zé Ramalho
Escrito em. 1 May, 2008 por Murilo Contro
Certas músicas contam histórias, algumas parecem que saltaram de um bom livro devido a verossimilhança que conseguem alcançar em suas letras. Isso faz que eu me sinta espectador da ação passando a viver o que é cantado.
Muitas músicas do Zé Ramalho carregam isso, os detalhes, os arranjos, algumas rimas, aquela palavra usada de forma certeira que realmente faz jus a parecer música para os ouvidos, entre as entrelinhas que existem em suas letras com mensagens libertinas.
Músicas de Zé Ramalho, para ouvir e sentir:
Avohai - Zé Ramalho
A primeira estrofe já demonstra tamanha minuciosidade em descrever o personagem central. Seguindo, a canção continua traçando detalhes do personagem, agora sobre sua face: …Pares de olhos tão profundos Que amargam as pessoas que fitar…
Um velho cruza a soleira
De botas longas, de barbas longas
De ouro o brilho do seu colar
Na laje fria onde coarava
Sua camisa e seu alforje de caçador
Oh meu velho e invisível Avôhai
Oh meu velho e indivisível Avôhai
Neblina turva e brilhante em meu cérebro coágulos de sol
Amanita matutina e que transparente cortina ao meu redor
E se eu disser que é meio sabido você diz que é meio pior
E pior do que planeta quando perde o girassol
É o terço de brilhante nos dedos de minha avó
E nunca mais eu tive medo da porteira
Nem também da companheira que nunca dormia só
Avôhai… Avô e pai
Avôhai
O brejo cruza a poeira de fato existe
Um tom mais leve na palidez desse pessoal
Pares de olhos tão profundos
Que amargam as pessoas que fitar
Mas que bebem sua vida, sua alma na altura que mandar
São os olhos, são as asas
Cabelos de avôhai…
Na pedra de turmalina e no terreiro da usina eu me criei
Voava de madrugada e na cratera condenada eu me calei
Se eu calei foi de tristeza, você cala por calar
E calado vai ficando, só fala quando eu mandar
Rebuscando a consciência, com medo de viajar
Até o meio da cabeça do cometa, girando na carrapeta
No jogo de improvisar
Entrecortando eu sigo dentro a linha reta
Eu tenho a palavra certa
Pra doutor não reclamar
Avôhai… Avôhai
Avôhai… Avôhai
Vila do Sossego - Zé Ramalho
A rima aplicada de forma constante deixa a música harmoniosa como uma poesia. Veja: …Que normalmente, comumente, fatalmente, felizmente, displicentemente o nervo se contrai, oh, com precisão... e …Um compromisso submisso, rebuliço no cortiço chamo o Padre “Ciço” para me benzer, oh, com devoção…
Outro momento que faz eu imaginar uma leitura, é a forma de relatar certas ocasiões. Como falei no início deste artigo, letras que usando palavras certeiras deixam a leitura, ou melhor a canção ótima para os ouvidos. Fazendo analogias e deixando nossa imaginação fluir, esse momento floresce nesse trecho: …Nos aviões que vomitavam pára-quedas / Nas casamatas, caso vivas, caso morras / E nos delírios meus grilos temer…
Oh, eu não sei se eram os antigos que diziam
Em seus papiros Papillon já me dizia
Que nas torturas toda carne se trai
Que normalmente, comumente, fatalmente, felizmente,
Displicentemente o nervo se contrai, oh, com precisão
Nos aviões que vomitavam pára-quedas
Nas casamatas, caso vivas, caso morras
E nos delírios meus grilos temer
O casamento, o rompimento, o sacramento, o documento
Como um passatempo quero mais te ver, oh, com aflição
Meu treponema não é pálido nem viscoso
E os meus gametas se agrupam no meu som
E as querubinas meninas rever
Um compromisso submisso, rebuliço no cortiço
Chamo o Padre “Ciço” para me benzer, oh, com devoção
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1 Comentário para “Músicas Literárias - Zé Ramalho”
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em 5 May, 2008 8:55 am
Muito bom…
além do mais, sua voz forte parece fazer chegar bem mais profundo na nossa realidade.
Zé Ramalho !!