O Cheiro do Ralo - Lourenço Mutarelli

Escrito em. 17 March, 2008 por Murilo Contro

o cheiro do ralo - lourenço mutarelli

Título: O Cheiro do Ralo
Autor: Lourenço Mutarelli
ISBN: 8575320378
Editora: DEVIR

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Estranho imaginar um livro onde todo o enredo gira em torno de uma bunda e um ralo fétido. Assim é O Cheiro do Ralo de Mutarelli.
Textos voracíssimos que conduzem a história para pele do leitor, ora aflita, ora dramática, ora hilariante.
Nosso protagonista é um homem muito perturbado próximo da meia idade, com poucos cabelos e muito humor negro na ponta da lingua. Para ele ninguém possui nome, apenas ele, Lourenço. Tudo é objeto, tudo é material e pode ser comprado, inclusive as pessoas e seus sentimentos.
Vive da compra de artigos usados, artigos esses de pobres desesperados por dinheiro.
Praticamente toda perplexidade do livro se dá a isso: trabalho (esse muito sujo), o ralo fedendo merda do banheirinho (que ele insiste em frisar para todos que está quebrado) e a bunda da garçonete do buteco onde costuma fazer refeições que nunca caem bem. Ou a história se passa no ciclo segundo o próprio Lourenço: “Vejo a bunda que me alimenta, alimenta os sonhos que não tenho. O preço para poder ver a bunda é comer o lixo daquela comida. A comida sempre cai mal. Assim o ralo fede. Ou seja a bunda faz o ralo feder.”
Mas essa idéia é descartada pelo próprio Lourenço, pois o ralo já fedia antes dele perceber a bunda.
Insanidade doentia, o leitor se depara com isso, seu apego pelos elementos, esse que comprados com alguma história, com uma certa alma, que ele acaba absorvendo e vivendo uma paranóia, chegando a ficar amarelo de doente.


Trechos do Livro O Cheiro do Ralo - Lourenço Mutarelli

Irritado entro num restaurante, desses por quilo.
Até o termo me enoja.
Porquilo. Associo.
Faço o prato e confiro o preço.
Penso em mais tarde cagar numa balança, só para conferir.
A comida é melhor que sua cara.
Volto. Me sinto vazio.

Me pego olhando numa jarra de um suco que eu mesmo fiz.
Fecho a geladeira.
Ligo a TV.
Imagino uma série de coisas. Misturadas ao que a TV diz.
No 80 são três se pegando, naquela velha coreografia de filme pornô.
No Discovery um monstrengo assustado.
A série americana já vem com risadas.
No Cartoon um desenho que vi quando era criança
No teto uma lâmpada desatarraxada.
No sofá minha roupa de ontem.
Na estante ainda tem livro pra ler.
O jornal repete o atentado de um mundo que eu mesmo fiz.

Ela entra chorando.
Me pede perdão.
Diz que me ama.
Diz que não vai me perder assim tão facil.
Me abraça. Eu, imóvel. Digo que ela não tem nada a me oferecer.
Ela bate na minha cara.
Ela diz que vou me arrastar a seus pés.
Eu nunca gostei dela.
Eu nunca gostei de ninguém.
Ela sai.
O cheiro do merda me infesta o nariz.

O livro contou com uma adaptação para o cinema também intitulada O Cheiro do Ralo, nosso amarelo é vivido por ninguém menos que Selton Mello, que como sempre deu um show de atuação. Dirigido por Heitor Dhalia, e com partipação do próprio autor Lourenço Mutarelli o filme vai ser uma consequência de sua leitura, ou vice-versa.

Provocações para os leitores

• Tamanha dimensão que trás essa obra, a precificação de tudo pelo homem, a paranóia pelo material, a busca pelo conforto, afinal que conforto é esse que ele queria atingir? Podemos então fazer uma ponte com o mundo de hoje?

• Lourenço chegou a tal ponto por falta de uma base sólida? Um pai quem sabe, seu pai caolho como descreve no livro?

• Antes da morte, em uma de suas reflexões Lourenço solta essas palavras: “Das coisas que eu perdi, as que mais sinto falta são aquelas que não existem; as que não são materiais e que não se pode comprar.”
Ele então chegou a sentir que as coisas não estavam caminhando para o lado certo, ele se arrepende de sua vida até o momento?

• Lourenço morreu fisicamente, e mesmo que estivesse vivo no final ele estaria morto em seu intelecto. Sua mente já estava a ponto de pedir arrego, se confortando ao suicídio?

Sobre o autor Lourenço Mutarelli

Lourenço Mutarelli (São Paulo, 18 de abril de 1964) é um escritor e desenhista de histórias em quadrinhos brasileiro.

Cursou a Faculdade de Belas Artes. Durante três anos, trabalhou nos estúdios de Maurício de Sousa, no começo como intercalador e depois como cenarista, onde conseguiu deixar um pouco de sua marca sombria.

Entusiasmado pelo grande número de revistas que surgiram na década de 80, tentou publicar suas histórias, mas elas eram consideradas muito “estranhas”. Quando tentou fazer humor, criou o Cãozinho sem pernas, que, nos dias de hoje, ainda é lembrado com saudade pelos seus fãs.

Iniciou sua produção em histórias em quadrinhos por meio dos fanzines, edições alternativas com pequenas tiragens publicadas com recursos de xerox ou pequenas impressoras, distribuídas pelo próprio autor. Seus dois títulos, Over-12 (1988) e Solúvel (1989) tiveram 500 exemplares impressos pela extinta Editora Pro-C, de Francisco Marcatti, importante nome nos quadrinhos underground na década de 80, e hoje são raridades muito bem conservadas nas mãos de seus fiéis leitores.

Publicou ainda histórias de uma página na revista Animal, publicação mensal sob a editoração de Rogério de Campos, Fabio Zimbres, Priscila Farias e Newton Foot, e em outros títulos da Editora Vidente, de Gilberto Firmino. Com Marcatti e Glauco Mattoso editou a revista Tralha, também publicada pela Vidente.

Recebeu vários premios e é aclamado por sua participação no cinema e no teatro. Criou a arte do filme “Nina” dirigido por Heitor Dhalia e escreveu o romance “O Cheiro do Ralo” adaptado para o cinema, sendo dirigido por Heitor Dhalia e estrelado por Selton Mello. Recentemente, seu romance “O Natimorto” foi adaptado para o teatro pelo dramaturgo Mário Bortolotto.

Escreveu vários livros, a maioria publicados pela Devir editora.

Romances: O Cheiro do Ralo; O Natimorto; Jesus Kid.

Quadrinhos: A Caixa de Areia; Transubstanciação; Sequelas; A Confluência da Forquilha; Mundo Pet; O Dobro de Cinco; O Rei do Ponto; A Soma de Tudo 1; A Soma de Tudo 2. Fonte: Wikipedia


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